quinta-feira, 19 de abril de 2012

O mundo inteiro não vale...


Quem está batendo? Que telefone é esse? Será que eu paguei a conta?
            Mas então eu abro os olhos. Calma, está tudo bem, é apenas o maldito despertador chamando para o maldito engarramento no ônibus lotado que me leva ao maldito escritório. Ai, graças a Deus! Podia ser tiroteio entre a polícia, os traficantes, os bicheiros, os donos de van, os donos de bingo, os donos de puteiro, os donos de cachorros, os donos de qualquer coisa que outra pessoa está tentando roubar pra virar dono... Ou o tanque do exército procurando a paçoca da sobremesa do general que algum cachorro roubou, e desde então todos os cachorros da cidade estão sendo cuidadosamente esquartejados e seus estômagos milimetricamente abertos à faca e seu conteúdo levado aos laboratórios para que se descubra o destino da paçoca de uso exclusivo das forças armadas. Aumentou muito a oferta de emprego para quem trabalha em laboratório.
            Eu preciso ir num laboratório. Talvez eles descubram por que vem sempre este enjôo, este gosto ruim na boca enquanto eu escovo os dentes. Eu não sei por que meu estômago cisma de ficar perguntando: tem alguém passando a perna na gente? Tem? Tem? Deve estar mesmo doente o meu estômago. Eu queria fazer uma dessas operações em que se arranca o estômago ou se bota um balão no lugar dele, sei lá. O pior é que ele não pára. Daí eu paro na porta do banheiro e começo a examinar minha família.
            Meu filho. Ele continua na escola, isso é bom. Mas continua na oitava série. É a terceira vez. Ele é burro ou está se drogando? Graças a Deus, tenho quase certeza de que ele usa drogas. Eu uso e reconheço isso de longe. Mas ele pode estar vendendo drogas. Será que ele vai virar traficante, vai em cana, vai ser morto bem aqui na porta com dez tiros nas costas, vai deixar algum dinheiro pra eu pagar as dívidas? É difícil saber.
            E minha filha? Vive no baile funk. O que ela está fazendo lá? Cultura ou putaria? Eu não sei. Vai ver que putaria é cultura. Ou cultura é que é putaria. Isso é muito confuso.
            Minha mulher. Por que a gente vive junto? Por que a gente não se separa? Por que a gente se casou? São essas perguntas que estragam um casamento. Então eu não pergunto nada. E também não respondo. Vou tomar umas na esquina. Ela reclama que eu almoço e janto na esquina. Me mandou morar na esquina. Ela pensa que me dá ordens mas não dá não. Eu é que obedeço.
            Aqui na esquina a coisa não melhora. Um sujeito quer me convencer a não votar nos caras que disseram que íam mudar tudo e acabar com a roubalheira e que mudaram os seus hábitos e foram pegos roubando. Eu tenho é que votar nos caras que roubaram antes deles e que prometeram voltar para acabar com a roubalheira que eles começaram e que os honestos continuam. Eu preciso pensar. De quatro em quatro anos eu tenho a chance de votar certo e mudar tudo. Tudo! É um milagre mas eu preferia acertar na loteria. Tudo é tão difícil.
            Ultimamente só se fala em roubo. De uma simples carteira pra comprar cerveja a um país inteirinho pra pegar petróleo. Funda-se um banco como se fosse uma igreja e igrejas como se fosse bancos. Já teve feudalismo, capitalismo, socialismo, não sei se foi nessa ordem mas sei que agora o mundo se reorganizou em quadrilhas. Al Capone deve estar orgulhoso no céu dos mafiosos. O futebol por exemplo. Antigamente só o juiz podia ser ladrão. Eu não entendo.
            Minha mulher vive dando mil razões pra gente ir viver no campo. No campo fica-se longe dos conflitos da cidade... e pertinho dos conflitos do campo. Sem falar nas abelhas e nos marimbondos.
            Depois da quinta cerveja aqui na esquina eu decido voltar pra casa, ligar o gás e me matar. Mas cadê dinheiro pra comprar o botijão? O jeito é pegar o maldito ônibus para o maldito escritório. Mas alguma coisa começa a tocar dentro da minha cabeça e eu pergunto: Quem está batendo?...     


Texto do escritor Cesar Cardoso.
Raphael Lennon. Presidente da Confraria Alta Qualidade. Gestão 2012.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

TEU POVO TE QUER DE VOLTA, BELÉM!


Ainda te chamam de menina morena, mesmo prestes a te tornares quatrocentona.
            Mas há de se perguntar, às vésperas do teu quarto centenário:
            Será que tá tudo bem, Belém?
            Em tuas ruas, além das sombras das frondosas mangueiras a amenizar o calor, recrudesce, dia e noite, o sombrio abandono das tuas crianças.
            Em tua atmosfera, o cheira-cheira do tacacá e o delicioso aroma das tuas frutas concorrem com o lixo que não suportamos cheirar.
            Em tuas escolas, onde o presente é de esquecimento, educadores e estudantes te imploram pelo futuro.
            Teus filhos e filhas, largados à própria dor, nos corredores e no chão das unidades de saúde, sem remédio para aliviar os males, sem tratamento e atenção, reclamam teu colo de mãe.
            Teu povo te quer de volta, Belém!
            Teu povo te quer liberta do abandono do maltrato.
            Teu povo, amável e hospitaleiro, lutador e insubmisso, te quer de volta!
            Belém, Belém, que todas as manhãs acorda a feira na beira do Guajará, eis aqui o teu povo desperto e ávido para saciar os murmúrios de saudades que há muito latejam no peito.
            Saudades da nossa Belém cheirosa e formosa.
            Saudades da nossa Belém que abraçava e acolhia o seu povo e por este era abraçada e acolhida.
            És, Belém, nossa bandeira.
            És, Belém, nossa terra, nossa casa, nosso chão.
            E é por ti, Belém, que conclamamos o teu povo à luta.
            É por ti, Belém, que conclamamos o teu povo a um esforço que não cabe num único segmento da sociedade, ou numa única pessoa, ou num único partido.
            E a que luta e esforço nos referimos?
            A luta e o esforço para devolver Belém ao seu povo; para devolver o povo à sua cidade; para devolver à Belém e ao seu povo o direito a um presente e a um futuro de justiça e felicidade.
            Mas se essa luta e esse esforço não cabem num único segmento social, ou numa única pessoa, ou num único partido, cabem muito menos aos que usurparam as riquezas da nossa cidade e seqüestraram a esperança de seu povo.
            Essa luta e esse esforço são dos que fazem da busca por justiça e felicidade coletivas, a razão de ser dos eleitos e a única razão ética que justifica os governos.
            O governo de Belém a ser eleito para o próximo quadriênio (2013 a 2016) será o governo dos 400 anos. Façamos valer o dito popular segundo o qual cada povo tem o governo que merece.
            E que governo o povo de Belém merece em seus 400 anos?
            O que merecemos, e queremos, é um governo que governa com participação e controle social; que cuida de suas crianças e idosos; que preza e pratica a solidariedade; que governa com transparência; que não usurpa, malversa ou dilapida o bem público; que busca obstinadamente a justiça e a felicidade para todos; que mira o futuro sem descuidar-se do presente de seus filhos e filhas, naturais e adotivos.
            O povo de Belém quer de volta o direito a um presente e a um futuro dignos. Quer de volta o direito de sonhar, pois já o provou, não faz muito tempo, e não esquece o gosto.
            Este manifesto, mais do que uma declaração de amor por Belém, é o ato inaugural de um movimento cívico no qual o povo de Belém é o protagonista.
            Com fé no que virá, exortamos homens e mulheres, jovens e idosos, trabalhadores, empresários, estudantes, enfim, todos e todas, a aderirem a esse movimento cívico que haverá de devolver Belém ao seu povo.

Manifesto extraído das redes sociais: www.belemnasmaosdopovo.wordpress.com
Raphael Lennon.
Presidente da Confraria Alta Qualidade. Gestão 2012.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Você é apenas um outro tijolo no muro...


Recentemente, Roger Waters ex-líder da banda inglesa Pink Floyd esteve no Brasil para realizar uma serie de shows pelo país apresentando um dos maiores espetáculos de música do planeta: the wall, o muro em português.
            Recheado de músicas auto-biográficas e críticas ao sistema dominante vigente, encantou o mundo pela observação minuciosa e decodificação da sociedade contemporânea.
            Na sua música de maior impacto mundial e carro-chefe do espetáculo Another Brick In The Wall questiona a liberdade dentro e fora do ambiente escolar, haja vista que se constitui como uma crítica social latente.
            Sob outro aspecto, pode-se dizer que o teórico Émile Durkheim trabalhou em seus escritos a idéia de que o homem possui uma autonomia relativa, ou seja é produto, resultado das transformações e concepções de uma determinada sociedade.
            Já para o filósofo francês Sartre, o homem é o ser pelo qual o nada vem ao mundo. Isto é, o homem é nada e, consequentemente, pode e deve escolher-se a si mesmo. É um projeto, é um perpétuo fazer-se, é uma escolha a partir da liberdade.
            Divergindo de Sartre, Burrhus Skinner, psicólogo norte-americano, nos diz que a liberdade é um mito divulgado pelas filosofias e, por essa razão, propõe um controle sobre o comportamento e a cultura dos homens como saída para uma vida plena e feliz.
            Já para o escritor russo Feodor Dostoievsky que privilegia a análise psicológica das personagens em Os irmãos Karamazov, apresenta o livre-arbítrio como uma “carga terrível” que o homem deve suportar em sua existência. 
             Na esteira dos filósofos existencialistas ateus, como Sartre, Camus, Heidegger, Merleau-Ponty, a liberdade do homem é afirmada com a “morte de Deus”. Sendo assim, Dostoievsky escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”.
            Insistindo ainda nas concepções dos pensadores, Immanuel Kant, filósofo prussiano escreveu: “Considerando a cadeia inquebrantável dos acontecimentos naturais, é possível dizer que a liberdade é nada menos que uma ilusão.
            Portanto, por qualquer ótica que se apresente, o tema liberdade gera muita polêmica e celeuma, já que não é um conceito simples de ser abordado e construído historicamente.
            Dessa forma, é preciso fazer um exercício profundo para dentro de si mesmo para responder questões complexas, entre elas: Você é ou não é apenas um outro tijolo no muro?


Raphael Lennon. Presidente da Confraria. Gestão 2012.