Quem
está batendo? Que telefone é esse? Será que eu paguei a conta?
Mas então eu abro os olhos. Calma,
está tudo bem, é apenas o maldito despertador chamando para o maldito
engarramento no ônibus lotado que me leva ao maldito escritório. Ai, graças a
Deus! Podia ser tiroteio entre a polícia, os traficantes, os bicheiros, os
donos de van, os donos de bingo, os donos de puteiro, os donos de cachorros, os
donos de qualquer coisa que outra pessoa está tentando roubar pra virar dono...
Ou o tanque do exército procurando a paçoca da sobremesa do general que algum
cachorro roubou, e desde então todos os cachorros da cidade estão sendo
cuidadosamente esquartejados e seus estômagos milimetricamente abertos à faca e
seu conteúdo levado aos laboratórios para que se descubra o destino da paçoca
de uso exclusivo das forças armadas. Aumentou muito a oferta de emprego para
quem trabalha em laboratório.
Eu preciso ir num laboratório.
Talvez eles descubram por que vem sempre este enjôo, este gosto ruim na boca
enquanto eu escovo os dentes. Eu não sei por que meu estômago cisma de ficar
perguntando: tem alguém passando a perna na gente? Tem? Tem? Deve estar mesmo
doente o meu estômago. Eu queria fazer uma dessas operações em que se arranca o
estômago ou se bota um balão no lugar dele, sei lá. O pior é que ele não pára.
Daí eu paro na porta do banheiro e começo a examinar minha família.
Meu filho. Ele continua na escola,
isso é bom. Mas continua na oitava série. É a terceira vez. Ele é burro ou está
se drogando? Graças a Deus, tenho quase certeza de que ele usa drogas. Eu uso e
reconheço isso de longe. Mas ele pode estar vendendo drogas. Será que ele vai
virar traficante, vai em cana, vai ser morto bem aqui na porta com dez tiros
nas costas, vai deixar algum dinheiro pra eu pagar as dívidas? É difícil saber.
E minha filha? Vive no baile funk. O
que ela está fazendo lá? Cultura ou putaria? Eu não sei. Vai ver que putaria é
cultura. Ou cultura é que é putaria. Isso é muito confuso.
Minha mulher. Por que a gente vive
junto? Por que a gente não se separa? Por que a gente se casou? São essas
perguntas que estragam um casamento. Então eu não pergunto nada. E também não
respondo. Vou tomar umas na esquina. Ela reclama que eu almoço e janto na
esquina. Me mandou morar na esquina. Ela pensa que me dá ordens mas não dá não.
Eu é que obedeço.
Aqui na esquina a coisa não melhora.
Um sujeito quer me convencer a não votar nos caras que disseram que íam mudar
tudo e acabar com a roubalheira e que mudaram os seus hábitos e foram pegos
roubando. Eu tenho é que votar nos caras que roubaram antes deles e que
prometeram voltar para acabar com a roubalheira que eles começaram e que os
honestos continuam. Eu preciso pensar. De quatro em quatro anos eu tenho a
chance de votar certo e mudar tudo. Tudo! É um milagre mas eu preferia acertar
na loteria. Tudo é tão difícil.
Ultimamente só se fala em roubo. De
uma simples carteira pra comprar cerveja a um país inteirinho pra pegar
petróleo. Funda-se um banco como se fosse uma igreja e igrejas como se fosse
bancos. Já teve feudalismo, capitalismo, socialismo, não sei se foi nessa ordem
mas sei que agora o mundo se reorganizou em quadrilhas. Al Capone deve estar
orgulhoso no céu dos mafiosos. O futebol por exemplo. Antigamente só o juiz
podia ser ladrão. Eu não entendo.
Minha mulher vive dando mil razões
pra gente ir viver no campo. No campo fica-se longe dos conflitos da cidade...
e pertinho dos conflitos do campo. Sem falar nas abelhas e nos marimbondos.
Depois
da quinta cerveja aqui na esquina eu decido voltar pra casa, ligar o gás e me
matar. Mas cadê dinheiro pra comprar o botijão? O jeito é pegar o maldito
ônibus para o maldito escritório. Mas alguma coisa começa a tocar dentro da
minha cabeça e eu pergunto: Quem está batendo?... Texto do escritor Cesar Cardoso.
Raphael Lennon. Presidente da Confraria Alta Qualidade. Gestão 2012.
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